quarta-feira, outubro 04, 2006

Restarão cidadãos?


No texto Cultura McWorld o Prof. Benjamin R. Barber levanta a questão que dá título a esta postagem: Restarão cidadãos? Na última linha da última página do texto, ele constata:

“Se não for encontrada uma terceira via entre o Estado e o mercado, talvez sobrevivamos como consumidores, mas não mais existiremos como cidadãos.” (pg. 55- Por uma outra comunicação. Editora Record, 2003)

Apesar de colocar a solução para o problema em uma alternativa que correria entre o Estado e o Mercado, o autor focaliza suas críticas neste último apenas. Para ele, a cultura McWorld penetra de forma sorrateira nos Estados-Nação, retira sua soberania (que passa às multinacionais) utilizando a “estratégia da jibóia” - camuflar mercadorias McWorld com traços da cultura circundante - para ingurgitar e destruir as culturas locais. A penetração se dá através da liberdade do Mercado, da livre troca de mercadoria e da circulação do dinheiro.
Isso é um fato? Algo que se pode tocar, cheirar, escutar e lamber? Claro que é! Apenas um cego-surdo-mudo-insensível – enfim, um legítimo defunto – poderia negar (se ele pudesse). Basta ir a um Shopping Center, em qualquer lugar do Mundo, na hora do almoço de um Sábado para perceber de forma radical que vivemos imersos na Cultura McWorld. Este é o nosso mundo! Esta é a nossa circunstância!
O filósofo espanhol José de Ortega y Gasset diz que o “eu” do homem é o seu “eu” e a sua circunstância.
Ora, nós não vivemos na Grécia Clássica! Nós não vivemos na Idade Média! Nós vivemos no século XXI e é no século XXI que devemos tomar nossas decisões. O filósofo ainda diz:

“(...) nossa vida é a todo instante, e antes de mais nada , a consciência do que nos é possível.” ( pg.61 - A rebelião das Massas . Editora Martin Fontes, 1987 )

O Prof. Barber constata de forma lúgubre que:

“A liberdade mundial assemelha-se cada vez mais à escolha do molho que vai acompanhar o único prato disponível.” (pg. 46)

Por mais trágica e dramática que seja tal constatação, não podemos de forma alguma duvidar da nossa liberdade radical (de raiz), que é muito distinta de uma possibilidade radical, de um “poder tudo”. O homem nunca pôde, não pode, e não poderá nunca ter a possibilidade de fazer tudo! Quem tudo pode não morre...
Sim! O Mercado circunscreve nossa vida. Sim! As multinacionais (ou anti-nacionais como diz Barber) têm poderes que nos são impostos; poderes que nós, meros cidadões-consumidores, não temos o menor conhecimento e alcance. Mas somos escravos? Não! Somos, sim, limitados por esta circunstância. Somos limitados pelas circunstâncias como qualquer ser humano em qualquer outra época o foi.
Ignorar esse fato é abandonar qualquer perspectiva histórica; é cair no “autismo temporal” para o qual o filósofo Olavo de Carvalho chama a atenção (ver endereço http://www.olavodecarvalho.org/textos/mais_excluidos.htm); autismo que nos circunscreve e nos escraviza (mas podemos nos libertar) perigosamente ao nosso próprio tempo, fazendo assim com que nos olhemos como seres modernos (ou seres pós- modernos) apenas, e não como seres humanos.

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Será que a gente sobrevive a essa avalanche de marcas, novidades, que nos rodeiam o tempo todo? Será que se isolar do mundo para não ser atingido seria uma boa idéia? Ou deixar a jibóia engolir o sapo? São questionamentos que devemos fazer, até mesmo para entender o que acontece. Engolido pela jibóia não sei, mas o que temos de sapos para engolir...
Parabéns pela análise!

4/10/06 3:24 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Felipe, entendo a sua análise, do ponto de vista antropológico. Disso, conversamos no metrô. Mas do ponto de vista da comunicação, ainda acho perigoso que simplesmente enxerguemos a dominação de poucos grupos de mídia como algo meramente da nossa época. Eu seria totalmente favorável a sua análise, se soubesse que todos fossemos capazes de entender as limitações do ser humano e o ambiente exclusivo dos conglomerados de mídia. Mas gostei, sim, do seu texto. Mais debates no metrô.

4/10/06 8:51 PM  

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